quarta-feira, 11 de julho de 2018

Será que eu vou...?


Os meus sentimentos tanto me abalam que eu choro sem saber o porquê, quando tudo leva-me a um vazio absurdo, minha verdadeira redenção é o prelúdio para o primeiro ato de Parsifal - talvez a maior ópera de todos os tempos, daquelas que não consigo escutar toda hora, mas renovam-me sempre que a faço. Não conheço maiores tentações ao homem que o tempo e o amor, eles desgastam nosso corpo e alma. O amor não é platônico, nem direto, é asburdum, e sempre será.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Anotações sobre Faulkner.

Foto do Cartier-Bresson.

Dono de uma rara sensibilidade em reconhecer os sentimentos humanos, Faulkner viveu em um caótico mundo, escrevendo diante da solidão e da melancolia, mas sem jamais cair em um ferino niilismo, muito longe disso por sinal. Faulkner era um humanista, o maior elogio possível que posso empregar a uma pessoa, o autor nasceu no berço de uma tradicional família sulista, e com essa matéria-prima ele moldou o terreno do que seria a nova Comédia Humana: um estudo estético da ascensão, queda, triunfo e derrota do homem. Mas englobando todos os sentimentos e sentidos que a humanidade abrange. A construção de sua desafiadora obra foi espontânea, vinda de observação e leitura, mas jamais acreditava em certezas ou teorias. Faulkner usa a mitologia judaico-cristã (especialmente Antigo Testamento, evangelhos e Apocalipse) para moldar a maioria dos arquétipos do psicológico de seus personagens.  Faulkner é um autor com uma prosa e temática facilmente identificáveis: o passado e o presente se cruzando e formando um inevitável futuro, em que de maneira X ou Y, sempre terminarão de maneira Z. Isso explica a polifonia por vezes interpolada de sua prosa, valor tragediógrafo. O autor cria ambiente ficcional de Yoknapatawpha, um condado amaldiçoado, mas nem por isso sem esperança. Seus residentes sofrem eternamente seus dilemas, como em um "Limbo", pois independente do sexo, cor da pele ou classe social. Faulkner não tenta vitimizar ou proteger, deseja ser um guia existencial-metafísico, que aborda os universais dilemas de paixão, ódio, exclusão, deslocamento de mundo. Tudo em um arquetipicado universo, à moda de Balzac. Então o discurso político do autor é muito pouco presente, com exceção de Uma Fábula, romance bem distinto, por apresentar explícito valor político e não se passar no seu universo particular. A pesar disso, seria bastante ingênuo dizer que o autor é apolítico em sua obra, ele defende com clareza o direito dos negros e das mulheres, mas jamais vitimiza nenhum tipo ou se torna militante de alguma ideia, apenas defende a igualdade de direitos (e não econômica/social), por assim dizer, esse pensamento é uma provável síntese do que Mill ou Jefferson pensariam no caótico início do século XX.

A obra faulkneriana é regionalista, mais precisamente do gênero gótico-sulista, Yoknapatawpha é uma versão intimista do Condado de Lafayette, lá primariamente Faulkner narra as sagas de decadência aristocrática com uma fineza única, famílias desregradas, com um bloqueio entre as relações (sejam boas ou ruins) que servem como desenvolvimento tanto do psicológico quanto espacial; mas também narra o cotidiano de famílias e indivíduos solitários sem tanta condição financeira, mas que também são afetados pela moral, pelo tempo passado no tempo presente. Assim podemos dividir a prosa do autor em duas vertentes:

I- A obra em primeira pessoa (O Som e a Fúria; Enquanto Agonizo), que mostram vozes cacofônicas, a problemática humana (literalmente algumas vezes, como Benjy)  é sempre dissecada em uma estilística sempre devastadora, com o tempo se acasalando com os narradores. Enquanto Agonizo chama atenção estética pela prosa martelada lúcida de Cash, pelo desespero juvenil da Dewey, pela inocência infantil de Vardaman, pela perturbação de Darl, etc. É como um panorama gigante do drama humano, mas sem jamais abdicar a técnica do humor negro. A escrita varia de personagem para personagem, assim as portas polifônicas se abrem, Faulkner cria diversos maneirismos (onomatopeias, eufemismos etc) e jamais perde sua poética individual. Não falarei nada sobre O Som e a Fúria, já escrevi muito sobre esse romance.

II- A prosa faulkneriana em terceira pessoa é peculiar, tem uma narração onisciente que é (ou não) atrelada ao monólogo interior de um (ou mais personagens), não é difícil achar parágrafos gigantes com ideias se cruzando, somando e se anulando por causa de pensamentos distintos. Absalão, Absalão! é o pináculo disso tudo, um romance complexo em tudo, desde sua prosa indutiva até abordar temas que podem ser enviesados de maneira completamente anti-faulkneriana para alguns iniciantes, digamos assim. Uma obra sísmica. Um aterrador estudo de nossa natureza, em que praticamente todos os períodos do romance possuem alguma mensagem a ser decifrada, seja para expor o pensamento do autor ou revelar algo sobre a narrativa. E isso Faulkner faz muito bem, aglutina os motivs e oculta o princeps da narrativa, aumentando o papel do leitor, isso é uma coisa que também ocorre em menor intensidade em Luz em Agosto, um belo (e denso) ensaio sobre a dicotomia tradição/modernidade, ser/pensar, etc. Temas comuns na obra do autor como um todo. Além de expandir o cenário de Yoknapatawpha para além: um estado bruto de civilização. Assim essa obra é uma gêmea de O Intruso, obra de prosa requintada da segunda fase de Faulkner, cheia de sutileza, seja no humor ou na criação da situação. Não considero um romance policial, e sim um thriller existencial de primeiro nível. Mesmo que a poesia seja um pouco mais digerível aqui - conserva-se o drama de aceitação/rejeição, o horror psicológico e principalmente, uma beleza ímpar em expor a esperança de maneira aparentemente obtusa.

Não me alongarei mais, considero o Faulkner o maior desbravador dos nossos demônios internos e também o maior estilista literário do século passado. Sou suspeito a falar, mas a obra dele é a epopeia do homem moderno. Como Shakespeare e Balzac foram para outras gerações e atualmente se encontram na eternidade.

Mini-bibliografia:
http://rascunho.com.br/a-tecnica-da-desordem/
http://www.dicta.com.br/william-faulkner-bardo-norte-americano/
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1007200506.htm
http://drc.usask.ca/projects/faulkner/main/criticism/sartre.html
https://books.google.com.br/books?id=mG0j6-NWW-EC&printsec=frontcover&dq=faulkner+yoknapatawpha&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwiSoda1nYHcAhXFfpAKHR8ABoAQ6AEIJDAA#v=onepage&q=faulkner%20yoknapatawpha&f=false
https://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1949/faulkner-speech.html
http://acervo.revistabula.com/posts/entrevistas/entrevista-william-faulkner

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Perturbadoramente brilhante.

Neurótico, mlitante socialista, desesperançoso, depressivo, deslocado no mundo, destruído, aos poucos se reconfortando ao lado de sua nova família. Adejetivos como esses descrevem a vida e a personalidade de Eugene O'Neill, talvez o mais radical transformador do teatro norte americano do século passado, a começar pela sua fixação em cirurgicamente expor as angústias, defeitos, quedas e hipocrisias de seus personagens, em uma forte conexão com os trabalhos de Ibsen e Strindberg principalmente. O seu teatro é escuro, sombrio e até vazio, pessimista por excelência mas com repentes de luz e conforto, Longa Jornada Noite Adentro é exatamente isso, mas um ponto fora da curva de todo o seu teatro por ser uma transposição ficcional de eventos ocorridos na família do autor. O'Neill escreveu a peça em 1942 e pediu com toda a sinceridade e desespero do mundo que a obra fosse publicada e encenada postumamente, por razões óbvias - não ofender membros da família.

A peça possui apenas um cenário: a sala da casa da família Tyrone, local tão amaldiçoado quanto quem habita ela e aprisiona a família a uma espécie de samsara de pura dor e agonia; acompanhamos cerca de quinze horas do cotidiano da família destruída, a ação é executada apenas por cinco personagens: James Tyrone pai, representação do pai do autor, patriarca e ator idoso que vive caindo e recaindo às crises de melancolia que a velhice (e a decadência) nos atrái; Mary Tyrone (a mãe de O'Neill), uma mulher de aparências e que encontra sentido na vida via uso de morfina; Edmund Tyrone, um aspirante à escritor, estressadíssimo, adoentado por uma grave doença e engajado com políticas da ala esquerda (nem preciso falar que o O'Neill seria esse personagem); e James Tyrone filho (irmão mais velho do autor), mais velho dos dois filhos, galanteador e muito beberrão, segue a carreira de ator, mas encontra em sua vida desregrada o seu próprio fim; a única personagem não representante da família é a empregada Cathleen, representada de maneira bastante cartunesca.
A obra se inicia com uma belíssima dedicatória à esposa devido ao aniversário de doze anos de casamento, que por sinal eu gostaria de transcrever:
Minha querida, entrego-lhe os originais desta obra de velho sofrimento, escrita com lágrimas e sangue. Dom este que parece tristemente inadequado num dia que só se deveria comemorar a felicidade. Mas você compreenderá. Quero que seja ele uma homenagem ao seu amor e à sua ternura, que me restituíram a fé no amor, o que permitiu finalmente afrontar os meus mortos e escrever este drama... escrevê-lo com profunda piedade, compreensão e perdão aos quatro angustiados Tyrone.
Esses doze anos, minha amada, foram uma Jornada para a luz... para o Amor. Já conheci a minha gratidão! E o meu amor.
Talvez só o final do prefácio de Nostromo tenha sido algo tão emocional já feito logo em uma apresentação. Depois disso se inicia verdadeiramente a obra, com um fetiche simbólico (para mim ininteligível) pelo número quatro - quatro atos, quatro familiares, etc. Como em um filme de Marian Dora, as relações dos personagens entre si e com o próprio ambiente (na maioria das vezes se confundindo) é mais importante que o próprio enredo; Faulkner em Absalão, Absalão! constrói uma narrativa repleta de personagens secundários importantes que nem falam ou aparecem diretamente em ação, mas que através de um diálogo sobre ele já sabemos o suficiente de sua persona, mesmo que enviesadamente.

Muitos leitores tratam a obra como uma peça niilista e apática, desesperançosa etc... discordo veementemente dessa interpretação, o autor usa de maneira amargurada a quebra de comunicabilidade e o distanciamento empático como alguns dos principais temas do devastador e vicioso universo que permeia a família, este que apesar de extreamente pessimista, jamais deixa de lado a sensatez, como no praticamente libertador último ato. O'Neill  principalmente se mostra um gênio quando ao criar uma obra tão universal como essa, talvez o mais verdadeiro e  retrato do lado negro das relações humanas, ainda gerar uma esperança - melancólica? Extremamente, mas não é por causa disso vai deixar de ter resquícios de esperança. Uma tragédia humanista por excelência.


Edição da Abril Cultural, 1977, comprei por cinco reais na Feira Pan-Amazônica do Livro desse ano, tradução de Helena Pessoa.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Dois textos curtos sobre duas obras-primas.

A Morte em Veneza é portadora de uma prosa lírica que poucos autores conseguem atingir, é uma obra focada primariamente em sentimentos e metafísica, e aqui acima de tudo nos dilemas da vida de um artista. Não diria que exatamente é uma leitura fácil, Mann é rigoroso e exige um certo preparo intelectual e psicológico do leitor.

Acompanhamos o erudito escritor Gustav von Aschenbach, do qual já gozou de prestígio crítico e de público, e que em período infértil viaja para Veneza a fim de resgatar ideias e inspiração para suas futuras obras. Chegando ao local ele se depara com uma beleza nunca vista antes... e que pode levá-lo ao seu iminente fim.

Mais do que isso, A Morte em Veneza descreve como platonismo se torna obsessivo, começa como uma paixão pelo belo clássico e pela pureza estética do artista desiludido Aschenbach pelo belíssimo jovem Tadzio, mas logo todo o sentimento vai se destruindo quando começa a se aproximar da carne; como se o protagonista  realmente entrasse em um vicioso jogo de moral, a dicotomia clássica do autor entra em cena em um grito cósmico de uma mente brilhantemente erudita, platônico, criadora e inquiet. Uma forma de purificação pouco ortodoxa de todos os pecados que permeiam um mundo que conheceu Virgílio e Goethe, a criação de toda impossibilidade que um artista deseja... a narrativa digressiva e eruditíssima remeteu-me ao Eliot de Assim expira o mundo / Não com uma explosão, mas com um suspiro. , jamais esqueçamos que é uma obra romântica, formal e esteticamente encantador. A obra é digressiva, mas sempre harmônica, discussões longas sobre arte não atrapalham o desenvolvimento da obra porque simplesmente pertencem ao texto, e esse é um dos charmes de Mann, que escreveu uma obra indubitavelmente tão perfeita quanto os cabelos e expressões angelicais de Tadzio.

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Tonio Kröger se afasta do hermetismo da novela anterior e talvez seja o mais acessível texto de Mann que li até agora (retirando Os Buddenbrook e As Cabeças Trocadas) e que sintetiza muito bem os anseios dicotômicos de seus personagens (o anterior Hanno Buddenbrook e os posteriores Gustav von Aschenbach e finalmente Adrian Leverkühn...), a questão primordial de criador/vida que é usada pelo autor em grande parte de sua produção é aqui levada ao leitor de uma forma até explícita o suficiente para expor a angústia do protagonista direta e literalmente (e esses adjetivos não seriam os que eu usaria para definir o autor de Doutor Fausto), o personagem é dotado de muita erudição mas pouco conhecimento sobre a vida (realmente, ele é apenas um burguês desiludido e frustrado!), fator fundamental na formação do jovem Castorp n'a Montanha Mágica (ainda que lá a erudição também seja formação!). Uma obra sublime, repleta das clássicas e sublimes digressões sempre necessárias na poética por vezes enciclopédica do autor, o último capítulo da obra serve como praticamente um resumo de boa parte da obra do autor, mas sem jamais perder a beleza e o primor estético-narrativo. A prosa apesar de ser em terceira pessoa, se assemelha muito a um monólogo autobiográfico, visto que algumas frases do protagonista ocupam quase duas páginas, aumentando ainda a intensidade do quão sublime Mann pode ser. No meio de sua aparente simplicidade, guarda em suas entrelinhas uma grandiosidade rara.


A edição da Companhia das Letras inclui ensaios do Anatol Rosenfeld, as traduções ficam por conta do Herbert Caro (na primeira novela) e Mário Luiz Frungillo (na segunda). 

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Mais um dia.

Há quem pense que estou desequilibrado por questões pessoais do agora – engana-se quem acredita nisto, o que ocorre neste instante é um mero artifício narrativo para impulsionar ainda mais o meu Universo depressivo de esperanças, desejos e anseios. As tragédias aristocráticas de Faulkner descrevem o ficcional condado de Yoknapatawpha, onde famílias anteriormente prósperas se destroem econômica, física e moralmente. Precisava confessar, é insuportável viver com familiares diariamente descontando o ódio interno deles em mim; a mãe está com tendências cada vez mais suicidas e o pai está desempregado e com problemas graves de saúde, inclusive com uma perna imobilizada, seria esse o definitivo réquiem de uma família? Minhas esperanças renascem, espero que eles se reorganizem, cresçam. Posso não ser empático com eles, mas também não sou um demônio para acreditar no (fim) definitivo, quantus tremor est futurus,/quando iudex est venturus, /cuncta stricte discussurus! Somemos isso com a síntese de tudo o que redigi até aqui, os meus devaneios estéticos e meus amores platônicos – metaficção de primeira categoria.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Minha conciliação com a autora?

Todos devem saber que não aprecio a obra da Virginia Woolf, acho sua prosa impecável, mas sua obra que mistura melancolia intimista com uma ironia quase social nunca foi um estilo que realmente me cativou, acho seu fluxo de consciência metódico e cerebral, longe do ímpeto faulkneriano ou até beckettiano; todavia baixei o PDF de As Ondas e me surpreendi, inclusive estou arrependido de não ter comprado o livro físico desse romance, é uma obra essencial, de espírito fortíssimo. Afastando-se do tom até caricatural de suas duas obras que li anteriormente (Flush e Mrs Dalloway), aqui a autora chega ao estágio de praticamente perfeição - seis indivíduos que volta-e-meia se aglutinam em uma poética ligação quase espiritual, detalhando suas perdas, amores, feitos, opiniões, e vidas. Uma grande obra, que infelizmente não deve ser comentada mais do que o básico, ler esse romance é uma espécie de tour-de-force em que a metafísica se move como devastadoras ondas de luz e trevas. Cada personagem tem uma peculiaridade, uma deficiência interna, e o curioso é justamente como isso é descrito: sentimentos e decadência, frutos de uma inquestionável poética anatomicamente melancólica, mas não menos cheia de renovação, ao menos como recompensa de aceitar a jornada. O estilo lembra-me alguns poemas do Eliot, com narradores fragmentados e temas místicos, mas diferente do poeta, Woolf claramente assume tons autobiográficos.

É impossível não ficar angustiado ou realizado diante de uma pequena obra-prima como essa, entendi o amor que os leitores sentem pela Woolf justamente agora, recomendadíssimo; apesar de ser "hermético" foi uma leitura muito mais séria e interessante das que eu fiz da autora antes, um grande romance.

Com certeza comprarei quando republicarem. O PDF era uma tradução clássica da Lya Luft, segue a capa:

quarta-feira, 23 de maio de 2018

A uma desconhecida

As dissonâncias ainda permeiam o meu coração, talvez para o seu desgosto; e embora eu tenha dito coisas erradas sobre você, não preencherei a minha alma de frases e declarações, acho isso patético, só não sei mais como parar de pensar nisso, eu sou uma pessoa febria, um decadente, sem rumo e só grito, um frustrado, um artista, talvez de outra vida, eu queria ser acorrentado, privado da liberdade, ela está me matando, a burocracia que eu mesmo montei a partir de sentimentos e opiniões de nada serve, é inútil, é degradante, é como se eu fosse um refém de minha própria insistência - e sou, não vejo mais beleza em sair de casa, eu corto toda minha dignidade interna, sou fidedigno aos meus princípios, quero muito finalmente sacrificar o que resta de mim apenas por você, mon cher, só penso em você, afinal de contas o seu futuro só depende do tempo passado e do tempo presente. Apenas segure as minhas mãos e vamos juntos caminhar até os portões invisíveis do Éden.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

05 de Maio de 1928, segunda parte

Depois daquela conversa com o Danny tudo fez sentido, eu deveria expor os meus sentimentos para ela: escrever um poema? A última vez que o fiz não apliquei, digo, falhei; uma conversa franca? Não quero ser chutado, sou muito frágil fisicamente, então o que ela estava pensando? Caminhei em direção a uma estalagem chamada O Rouxinol, nome muito cafona, não é? Abri a porta, era feita de um material de última categoria, lembrava-me a mais pura decadência da humanidade; fiquei enjoado, sons pesados, uma espécie de jazz band amadoríssima e com cheiro de sangue e urina. E eu apenas precisava alugar um quarto, apenas para (tentar) dormir. "Lamentável gente deslumbrada. O cara me espremeu tanto com idiotice que precisei mostrar que eu sou dona do estabelecimento para o cara parar de me desrespeitar, até a escolha do meu trabalho ele questionou." Disse uma voz, que me era bem familiar por sinal. A mesma sonoridade tranquila, hábil, afável, sua sonoridade inocente e legitimamente agradável, reconfortante e inconfundível. Ela estava de mãos dadas com o "Faça o que quiser, irmão, vivemos em uma democracia, meu caro, nada disso faz sentido para mim - aliás, a poesia morreu, romances também, óperas idem, sinfonias e concertos nem se falam mais! O futuro é o tribal jazz.", eu estranhei o discurso em todos os sentidos, passava-me a impressão de ser uma escola musical verdadeiramente vanguardista somada com a cultura nativa de nossa terra, e tentei falar com ela, fui impedido por um pequeno grupo que os cercavam, eles diziam "Ninguém se aproxime, o primeiro jazz couple está passando." Meu Deus, isso não faz sentido algum, "E a vida? Ela também não faz." Quase começo a chorar, todavia saí da estalagem e parti para a minha casa. Confesso que agora chorei de verdade, felizmente a chuva se inicia e eu vivo o famigerado clichê das duas águas misturadas que confundem o obervador, e não foi tão interessante quanto a ficção nos apresenta, sem nenhuma poesia eu fiquei completamente molhado, e foi apenas irritante, obviamente.

Continuava caminhando, meu corpo cansando, meus pés se dobrando, eu não mais pensava em nada, ah! Esse é o motivo de toda a metafísica, o nada. Repentinamente pensei em uma idiotice, isso é extremamente previsível vindo de minhas pré-formações, gargalhei feito um vilão de teatro, e dizem as más línguas que sou dono de um cinismo inatingível em toda a humanidade. Ela. Atravessei a Ponte Haroldgate, a chuva impedia um pouco a apreciação do natural, além do mais, automóveis volta e meia apareciam para atrapalhar a contemplação. Perceberam que desisti de ir para casa, avistei da ponte uma miragem: uma praia (?) e um pequeno farol, resolvi cair em queda livre nas profundezas aquáticas haroldgateanas; neste instante algo horrível ocorre:

- Haaaa, você tentando se matar mais uma vez. - era a voz com sotaque sulista da Lizzie - Se continuar tentando fazer isso eu vou te espancar, rapaz. - Eu ri e respondo: Não é nada disso que você está pensando, amor... - "NÃO ME CHAME DE AMOR." - Eu ri. - Ela se estressou. Digo lentamente: As pessoas são hostis comigo justamente por eu tentar ser justo. E ela tempestuosa como sempre declama o cioraniano: "Eu nunca fiz nada, nunca fui útil, nunca incomodei. Meu pai me fez ter medo de tudo e todos e eu cresci sozinha. Eu não confio em mim, tudo que eu faço eu odeio e estou esquecida por todos. Afogada na depressão, que eu sei que não vai passar nunca." Minha reação é lacrimosa como sempre, peço para que ela segure minhas mãos, a resposta não-verbal é um tapa no meio da minha face. Pergunto: "O que você está fazendo aqui, hein, Lizzie?", "O de sempre, estou procurando um lugar para beber e falar.", respondo: "O Rouxinol não vale a pena, nem fodendo, vamos juntos ao Owl's nightclub?" E ela responde "Claro." Uma longa viagem noite adentro inicia-se.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Constatações sobre "O Reino de Deus Está em Vós"

Obra ensaística da fase cristã de Tolstói, que começou com o fortíssimo Uma Confissão, obra autobiográfica de extremo impacto, em que vemos um Tolstói humanizado, atormentado e niilista, que deseja morrer, mas não se suicida apenas porque tem o pensamento que um dia encontrará sentido na vida - e encontra, a religião. Todavia o conceito de cristianismo do autor é completamente diferente do que pensamos, e é em O Reino de Deus Está em Vós que nós é apresentada a sua versão da religião cristã. Justamente por ser muito progressista para a sua época, Tolstói foi excomungado da igreja ortodoxa russa. Em seu texto, Tolstói nos apresenta diversos textos de teólogos/pensadores cristão que já questionavam os dogmas institucionais.

Primeiramente ele nega qualquer valor místico/de mistério da religião e a trata como uma forma de encontrar a metafísica da paz, do amor e da natureza; Tolstói prega a não-reação, ou seja, a ausência de agressões, entende que se um cristão utilizar a violência ele estará insultando e traindo a palavra de Cristo; critica as revoluções socialistas e também o desenvolvimento capitalista; ataca a violência governamental/militar; critica a propriedade privada; aprova a não-consumação de carne vermelha; aprova a castidade eterna... acho que já perceberam o tom anarco-pacifista que permeia a obra. Como é de costume principalmente em seus romances, Tolstói tenta persuadir o leitor com suas palavras, geralmente concordando ou discordando de suas posições que variam do quase-conservadorismo (preservação de tradições, valores familiares e anti-revolucionário) ao quase-socialismo (abolição da propriedade privada, minorias sendo beneficiadas, apesar de obviamente o autor não seguir o marxismo), o que torna a leitura do texto ainda mais desafiadora, pois sabemos muito bem que o Tolstóismo mistura diretamente religião com política social. E suas posições políticas não se enquadram em nada (critica positivistas e socialistas), obviamente ele não é liberal mas flerta demasiadamente com uma mistura de preservação e progressão, ainda que aqui seja menos presente que no então posterior romance Ressurreição.

Esteticamente é uma obra bastante agradável, texto polido, também sou suspeito a falar, a prosa desse homem é coisa de outro mundo na minha opinião. Um grandiosíssimo problema é justamente a tradução da edição aqui comentada (BestBolso, a única disponível no mercado nacional) - feita por Celina Portocarrero, que verteu a obra a partir de uma tradução italiana.

Com todo o seu tom meditativo, sereno e discursivo, acredito que essa seja uma obra que necessita de leitura cuidadosíssima, pois apesar de atemporais, as questões religiosas e (principalmente) políticas da obra necessitam de um entendimento da própria vida do autor e muita, muita reflexão - e isso não tem nada a ver com a religião ou posição política de quem o for ler.

terça-feira, 15 de maio de 2018

05 de Maio de 1928

- Você faria o quê pra salvar a sua amada de um afogamento? - perguntou intrepidamente o meu amigo. Respondo que daria muitas coisas para salvá-la, ele continua a me provocar e solta um "E qual seria o seu maior ato de sacrifício por ela?", rapidamente solto o faústico "Haha! Claro que trocar os meus livros pelo amor dela. Mas isso é contra minha honra de cavalheiro." Ele ri de mim: "E rapaz, tem algo de bom nesses livros aí?", minha expressão facial fica claramente estressada, odeio tanto isso. E ele foi continuando com: "Você é muito sozinho. Você só vai ser completo quando for numa hamburgueria do povão. Mas aposto que você é cheio de frescura pra comer. Tem que levar muita porrada. Posso ser sincero sobre ela? Bem, em plena Lei Seca aqui e você vem com essa de platonismo? Ela é genérica, padrãozinho de beleza. Branca, cabelo longo e preto, cara de tapada, corpo na medida certa de gordura, nem magra nem gordinha. Já fui apaixonado por uma genérica alemã: loira, alta e magra, cabelos longos e mechados, uma tristeza." Eu fico avassalado, nem sei como reagir, retruco: "Eu amo ela. Amo, amo. Discordo veementemente de sua descrição!"

- Você está apaixonado, é diferente.

"Ela é tão justa e adorável comigo! Preciso ser adorável com ela." E ele finaliza-me de vez, profeta ou não: "Primeira coisa que ela vai fazer é te foder, e com toda certeza não será sexualmente. Você é um menino ainda, tente lá."

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Uma opinião pessoal sobre o humor de Jane Austen

A obra de Jane Austen é espetacular de verdade, ela é uma autora genial - dona de um raro senso de humor sutil. Infelizmente creio que aproximadamente 90% dos leitores de suas obras não procurem sua prosa limpa, cheia de ironia e sagacidade, e sim esperam apenas um romance água com áçucar, garotas que amam o Sr. Darcy, etc... mas lembremos de toda a paródia ao romance gótico de A Abadia de Northanger, dos estereótipos malfeitores pré-Dickensianos de Mansfield Park. A obra de Austen é ímpar em toda a literatura inglesa justamente por isso, é delicada e engraçada. Obviamente é muito menos cartunesca que Dickens, mas comparemos Orgulho e Preconceito, com seu panorama muito bem construído de personagens (e que apesar de unidimensionais, conseguem ser queridos pelos leitores) com o romance quase contemporâneo de Austen, Middlemarch, da George Eliot - a diferença é extrema. A sutileza da Eliot está em camadas mais profundas, sua ironia e seu humor são movidos por ecos maduros, ora cinicamente destrutivo e ora quase trágicos, isso diferencia a crítica social Austeniana da George Eliotiana. Orgulho e Preconceito é uma sátira incrível e romântica! Personagens exagerados, ora parecem tão serenos e delicados e ora se transformam em verdadeiras caricaturas dos tipos de sua época. Justamente por essa variação talvez muitos não percebam esse aspecto crucial na estética da Austen. Um dos exemplos mais clássicos é encontrado justamente no início do romance:

"Como se chama?"
"Bingley."
"É casado ou solteiro?"
"Ora, solteiro, meu querido, é claro! Um rapaz solteiro e riquíssimo; quatro ou cinco mil libras por ano. Que maravilha para as nossas meninas!"

O diálogo segue e toma uma direção incrivelmente exagerada, no sentido mais positivo possível do termo. Falando nisso, a estrutura sempre harmônica dos diálogos nesse romance são muito interessantes e agradáveis de serem lidos.

Austen é cheia de vida, é bem-humorada, consegue fazer uma crítica social velada de comédia romântica. O principal problema da Austen talvez seja justamente algumas interpretações mais românticas de sua obra (e não tenho como e nem um porquê de refutá-las, literatura é algo extremanente subjetivo), como falei no início do texto: Austen foi genial.


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